ISSN 2179-1287
Número 10 | jan/fev/mar/abr 2013

Sociologia desafia professores e alunos no Ensino Médio

Sociologia desafia professores e alunos no Ensino Médio

Por Beatriz Albuquerque, Cláudia Ferreira e Júlia Teles

Transformar e preparar alunos para o exercício da cidadania. Essa é a fórmula mais comum utilizada para justificar a presença da Sociologia no Ensino Médio. Mas esse objetivo ainda está longe de ser alcançado nas redes privada e, principalmente, pública de ensino no Brasil. Relatos de professores e alunos mostram que as condições de ensino e aprendizado da disciplina são precárias e desiguais nos currículos escolares.

Durante a década de 1930, a Sociologia era disciplina obrigatória no currículo do antigo ensino secundário, hoje Ensino Médio, em alguns estados brasileiros. Mas, durante o Estado Novo, foi afastada dos currículos pela reforma educacional implementada pelo então ministro Gustavo Capanema. A Sociologia era vista como disciplina subversiva pelos militares, devido ao seu aspecto contestador da realidade social. Com o fim da ditadura e o processo de redemocratização do Brasil, a importância do ensino da disciplina voltou a ser discutida, resultando na obrigatoriedade do seu ensino a partir de 2008.

A Sociologia, juntamente com a Filosofia, foi incluída novamente nos currículos escolares com a Lei nº 11.684 de 2 de junho de 2008, que promoveu alterações na Lei nº 9.394/1996 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Mas a iniciativa ainda encontra dificuldades para se concretizar de maneira satisfatória nas salas de aula. O ensino da Sociologia vem esbarrando em obstáculos para cumprir as Orientações Curriculares Nacionais (OCN) propostas pelo Ministério da Educação (MEC).

Com licenciatura em História, uma especialização em Ciências Políticas e outra em História do Nordeste, o professor Pedro Wilson Porto dá aulas de Sociologia no Núcleo de Ações Integradas (NAP), em Casa Forte, bairro da Zona Norte do Recife. Ele acredita que ainda é preciso um estudo completo do programa curricular. “Pelo menos aqui em Pernambuco, o ensino ficou muito moldado ao que as universidades exigem no vestibular, mas nem sempre corresponde ao que é estabelecido pelo MEC”, explica.

Nas escolas das redes pública e privada, a disciplina costuma ser ministrada por professores que apresentam formação em outras áreas de conhecimento. A situação é corriqueira devido à reduzida carga horária exigida na grade escolar, uma hora/aula por semana. O professor de Sociologia do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Erinaldo Ferreira, tem bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais, mas concorda que esta prática é, de fato, comum. “As escolas deixam de contratar professores específicos de Sociologia, fazendo com que professores de outras disciplinas, que já trabalham na escola, sejam reaproveitados”, explica o educador, que trabalha em regime de dedicação exclusiva na escola localizada na Cidade Universitária, Zona Sul do Recife.

A reduzida carga horária é também uma queixa dos estudantes. Aluno do segundo ano do Colégio de Aplicação, Saulo Brasileiro acredita que uma aula semanal é pouco para a importância que a disciplina tem na sua formação. “A Sociologia me ajuda a compreender como se formaram os códigos de conduta sociais vigentes”, declara o estudante.

Alice Araújo, licenciada em Filosofia, é também professora de Sociologia e História na Escola Estadual Senador Novaes Filho, situada no bairro da Várzea, Zona Oeste da capital pernambucana. “Eu cursei especialização em Ensino de Sociologia e Filosofia. Só que, na especialização, eu não aprendi Sociologia, mas a ensinar Sociologia”, enfatiza a professora, esclarecendo que tem conhecimento limitado dos conteúdos da disciplina. Ela diz que, nas escolas públicas, a situação está além da disciplina de Sociologia. Para ela, o problema é estrutural. “A Secretaria de Educação de Pernambuco exige que o professor lecione 20 horas/aula por semana e, para completar essa quantidade, o professor precisa assumir diversas turmas e, comumente, outras disciplinas”, esclarece Alice.

A valorização da quantidade de horas/aulas em detrimento da qualidade do ensino consiste num dos grandes problemas do sistema educacional brasileiro. De acordo com a doutoranda em Sociologia da UFPE Fabiana Ferreira, os professores acabam adotando uma didática que faz com que haja na sala de aula apenas uma repetição do conteúdo abordado no livro didático, sem dar muito espaço para a reflexão. “Ainda que o professor tenha boa vontade, lhe falta a ‘imaginação sociológica’ de que dispõe o cientista social”, assegura a pesquisadora.

Para a realização de seu mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), concluído em 2012, Fabiana entrevistou diversos professores de sociologia. A principal dificuldade identificada entre os que não têm formação na área é a de fazer a associação entre temas, conteúdos e teorias. Segundo a pesquisadora, isso explica o fato de muitas vezes os conteúdos serem trabalhados de maneira superficial. “Os professores usam recortes de jornais, músicas e filmes na tentativa de promover o debate, mas eles não conseguem aplicar nesses recursos os pensamentos dos teóricos que estudaram os temas a serem discutidos”, avalia.

Apesar das dificuldades, há um perfil para os professores de Sociologia. É esperado que sejam agentes críticos sociais, orientadores de debates. Em suas aulas, o professor Nilson Castelo Branco prepara os alunos para terem bagagem teórica, estimula a investigação e promove debates críticos sobre os fenômenos sociais. O professor, que se graduou com licenciatura em História e se especializou em Ensino de História das Artes, Religiões e Culturas, ministra aulas de Sociologia no Colégio Único, escola privada localizada no bairro de Santo Amaro, Zona Central do Recife.

Com o intuito de tornar os conteúdos menos abstratos para os alunos, Nilson coordena, na escola, a produção de um periódico pautado pelo olhar da Sociologia. “Motivamos os alunos a realizarem pesquisas fora da escola e a elaborarem textos conclusivos sobre diversos ramos do desenvolvimento social e humano”, relata Nilson. A redação dos textos faz parte de um projeto desenvolvido pelo professor, chamado ‘A sociedade que queremos é aquela que fazemos!’, a partir do qual teorias e obras já desenvolvidas e escritas são estudadas em termos práticos. “Os alunos têm a referência necessária para desenvolver suas próprias observações acerca da cidade na qual vivem, bem como do conjunto das relações que envolvem as esferas política, econômica, social e cultural”, explica o educador.

Na rede pública, as condições de aprendizado e ensino parecem ser diferentes. A falta de recursos, tanto das escolas quanto dos alunos, dificulta o desenvolvimento de pesquisas ou a discussão a partir de temas contidos em filmes e outras mídias. Na Escola Estadual Santa Paula Frassinetti, no Espinheiro, Zona Norte do Recife, a professora Íris Carvalho, formada em Pedagogia, realiza debates sobre textos estudados durante as aulas. “Quando estudamos a Sociologia Política, no 3º ano, os alunos começam a perceber as lutas que garantiram muitos dos direitos que eles têm hoje. Eles passam a ver que entender a política, e consequentemente estudar Sociologia, é necessário para eles no âmbito social”, afirma a professora.

Um dos alunos da professora Íris, o estudante Rafael da Silva, 16 anos, está concluindo o ensino médio. Segundo Rafael, as aulas de Sociologia permitem que ele desenvolva um olhar crítico, “a Sociologia serve para que a gente entenda a sociedade e nosso papel dentro dela, nossos direitos e deveres”. Diferentemente, a aluna Lumena Marques, do Centro Educacional Helena Lubienska, situado no bairro da Torre, Zona Norte do Recife, diz ainda não ter descoberto a real importância da sociologia. “A gente está sempre mudando de professor e cada um tem uma linha de pensamento diferente, o que nos deixa um pouco confusos”, afirma.

O recém-contratado professor de sociologia do Lubienska, Carlos Holanda, que tem licenciatura em História, afirma que desde a lei de obrigatoriedade do ensino da sociologia no Ensino Médio, a disciplina tem sido vista com outros olhos. “A sociologia vem tentando abrir espaço para outras formas de abordagem, tanto no ensino, quanto na avaliação dos alunos”, comentou o professor.

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